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Argentina e Chile: por que os estudantes protestam pela educação

Do impasse sobre o financiamento universitário em Buenos Aires aos protestos contra o primeiro orçamento de José Antonio Kast em Santiago, a educação virou a linha de frente das disputas sobre austeridade na América do Sul. Veja o que aconteceu neste mês e por que isso importa.

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O Palácio do Congresso Nacional da Argentina, em Buenos Aires, com sua cúpula verde de cobre sob um céu azul
Felipe Restrepo Acosta / Wikimedia Commons / CC BY-SA 4.0 · Source

Principais pontos

  • Na Argentina e no Chile, estudantes, professores e sindicatos voltaram às ruas neste mês para protestar contra a contenção de gastos com educação por governos de direita.
  • Em Buenos Aires, a quinta Marcha Federal Universitária, em 15 de outubro de 2026, exigiu que o governo do presidente Javier Milei cumpra uma lei de financiamento universitário. A ministra da Segurança, Alejandra Monteoliva, estimou o público em cerca de 12.000 pessoas, das quais, segundo ela, de 200 a 300 eram violentas; pelas contas dela, 31 pessoas foram detidas e oito agentes ficaram feridos.
  • Em Santiago, estudantes marcharam em 1º de outubro contra possíveis cortes no primeiro orçamento do presidente José Antonio Kast, e milhares participaram em 18 de outubro de uma marcha pelos sete anos da onda de protestos de 2019 no Chile. As autoridades informaram 17 e pelo menos 29 detenções, respectivamente.
  • Os dois governos dizem que estão arrumando as contas públicas e que o direito de protestar não abrange a violência. Os organizadores afirmam que os cortes estão esvaziando a educação pública e acusam as autoridades de repressão excessiva.
  • A disputa agora passa para os tribunais e para os debates orçamentários: o conflito sobre a lei de financiamento na Argentina está na Justiça, e o Congresso do Chile debate o orçamento de 2027.

Universidades públicas gratuitas são motivo de orgulho nacional na Argentina e, mais recentemente, no Chile. Os dois países têm agora presidentes eleitos com a promessa de cortar gastos públicos, e em ambos a educação virou a linha de frente da reação. Esta análise mostra o que aconteceu em Buenos Aires e em Santiago neste mês, o que diz cada lado e por que as duas disputas importam além de suas fronteiras.

Argentina: o impasse sobre a lei de financiamento universitário

Contexto

Milei, economista libertário, tomou posse em dezembro de 2023 prometendo passar uma "motosserra" nos gastos públicos. Seu governo cortou milhares de empregos no setor público, reduziu subsídios e encerrou gradualmente programas sociais, segundo a agência suíça Keystone-SDA, além de cortar de forma significativa o orçamento das universidades públicas. Em maio, as instituições universitárias afirmaram que os repasses orçamentários em termos reais caíram 45,6% entre 2023 e 2026, um número das próprias universidades que o Bullquill não verificou de forma independente.

A disputa jurídica gira em torno de uma lei de financiamento universitário aprovada pelo Congresso em 2025. Milei a vetou, o Congresso derrubou o veto e o governo não liberou os recursos, informou a Keystone-SDA. O caso também está na Justiça. O governo argumenta que não pode gastar dinheiro que não tem e que as universidades precisam prestar mais contas sobre o uso dos recursos.

O que aconteceu em 15 de outubro

Milhares de estudantes, professores, funcionários universitários e sindicalistas se reuniram em frente ao Congresso, em Buenos Aires, para a quinta Marcha Federal Universitária, organizada pelo Conselho Interuniversitário Nacional (CIN), pela Federação Universitária Argentina (FUA) e por sindicatos universitários, informou a agência Anadolu. A manifestação foi pacífica até que grupos de encapuzados atiraram pedras e outros objetos contra a polícia, que respondeu com gás lacrimogêneo e canhões de água, informou a AFP. O ato principal terminou mais cedo, por volta das 16h40 no horário local, por causa da chuva forte e dos confrontos, segundo o La Nación, citado pela Anadolu.

Dentro do Congresso, uma sessão especial da Câmara dos Deputados convocada pela oposição, que analisaria a revogação do amplo decreto de desregulamentação de Milei, não aconteceu por falta de quórum, informou o Perfil. Os manifestantes também pediam a revogação desse decreto.

Os números e quem os divulga

ItemNúmeroFonte
Público, 15 de outubro (Buenos Aires)Cerca de 12.000, incluindo de 200 a 300 violentosMinistra da Segurança Alejandra Monteoliva (Radio Mitre, via Perfil)
Público, marcha universitária de maio de 2026 (todo o país)1,5 milhãoOrganizadores, via Keystone-SDA
Detidos, 15 de outubro31, incluindo dois menores (outros relatos: 25)Monteoliva; La Nación via Anadolu
Agentes de segurança feridos8Ministério da Segurança, via Perfil
Danos no entorno do CongressoCerca de 90 milhões de pesos (preliminar)Governo da Cidade de Buenos Aires, via Perfil
Ainda detidos dias depois4 adultos, acusados de resistência à autoridadeGrupo de direitos humanos Correpi, via Perfil

Na cobertura analisada, os organizadores não haviam divulgado uma estimativa de público para 15 de outubro.

Posições do governo e dos manifestantes

Monteoliva defendeu a operação policial, dizendo que o direito de se manifestar não justifica a violência e que quem atacou agentes ou danificou bens vai responder na Justiça. Ela classificou os incidentes como "terrorismo", informou o Perfil. Seu ministério apresentou uma denúncia criminal pedindo que o Ministério Público investigue resistência à autoridade, dano qualificado e atentado contra a ordem constitucional, sob o argumento de que os distúrbios visavam perturbar o Congresso. O Perfil informou que nenhuma sessão estava em andamento quando os confrontos ocorreram e que, até agora, quem continua detido responde apenas pela acusação mais leve de resistência à autoridade. O chefe de Gabinete, Diego Santilli, chamou os autores de "criminosos" e associou a violência à oposição.

Os organizadores condenaram a ação policial e repetiram a exigência de que o governo cumpra a lei. Um deputado peronista pediu o fim do que chamou de "repressão desnecessária". O Perfil informou que não houve violência nas colunas universitárias propriamente ditas.

Chile: o primeiro orçamento de Kast encontra os estudantes

Contexto

Kast, conservador, tomou posse em março de 2026 prometendo austeridade, informou a AFP. Em 30 de setembro, ele apresentou seu primeiro orçamento, para 2027, com aumentos de 9,1% nos gastos com segurança e de 8,1% nos fundos de crescimento e emprego. Em pronunciamento na TV, disse que o ensino superior público gratuito continuará para mais de 600.000 estudantes, embora seu governo tenha cogitado limitá-lo meses antes. Ele não disse se os orçamentos das universidades serão cortados.

O que aconteceu

  • 1º de outubro: Estudantes marcharam da Plaza Italia em direção ao palácio presidencial de La Moneda com o lema "Nem um peso a menos para a educação", informou a AFP. As autoridades estimaram cerca de 6.000 participantes. A polícia interrompeu a marcha depois de uns 800 metros e usou gás lacrimogêneo e canhões de água; alguns manifestantes atiraram pedras e garrafas. O Ministério do Interior informou 17 detenções.
  • 18 de outubro: Milhares de pessoas marcharam em Santiago para marcar os sete anos da onda de protestos de 2019 e se opor aos ajustes fiscais do governo, informou o Perfil. Os Carabineros (polícia nacional do Chile) disseram que a marcha começou de forma pacífica antes de um grupo de encapuzados atacar agentes com objetos contundentes e coquetéis molotov. Pelo menos 29 pessoas foram detidas e seis agentes ficaram feridos, segundo as autoridades.

Posições do governo e dos manifestantes

O ministro da Segurança, Martín Arrau, disse que um agente sofreu um ferimento no rosto causado por um rojão e afirmou que a sociedade rejeita a legitimação da violência. Kast critica há muito tempo os protestos de 2019. Grupos estudantis dizem que o orçamento prioriza a segurança em vez da educação e temem cortes nas universidades públicas. A opinião pública está dividida: uma pesquisa da Criteria citada pelo Perfil mostrou que 59% veem a onda de protestos de 2019 de forma negativa, mas 68% dizem que suas reivindicações continuam sem solução.

O que significa

  • Educação como linha vermelha política: Nos dois países, o ensino superior público gratuito tem amplo apoio, muito além da esquerda. Isso torna as universidades um alvo mais difícil para cortes do que muitas outras rubricas do orçamento e explica por que seus defensores conseguem mobilizar multidões.
  • Disciplina fiscal versus serviços: Milei atribui à contenção de gastos a queda da inflação, e Kast argumenta que as contas públicas precisam ser saneadas. Críticos dizem que a economia está sendo feita à custa dos serviços públicos e do crescimento futuro. O debate será decidido em parte pelos resultados econômicos e em parte nas urnas.
  • Policiamento e direito de protesto: Os dois governos adotaram linha dura contra a violência nas margens de marchas em sua maioria pacíficas. O uso, na Argentina, de acusações graves como "atentado contra a ordem constitucional", que segundo o Perfil muitas vezes não foram acolhidas pelos tribunais em casos anteriores, é motivo de contestação por grupos de direitos humanos.
  • Um padrão regional: O novo governo de direita da Colômbia também enfrentou neste mês seus primeiros protestos nacionais, motivados por gastos e regras sobre manifestações. Juntos, os três casos mostram como estudantes, professores e sindicatos estão se tornando a principal oposição organizada a uma onda de governos de direita na América do Sul.

Próximos passos

  • Argentina: Decisões judiciais sobre se o governo deve cumprir a lei de financiamento universitário e o destino da denúncia criminal contra os manifestantes. As universidades ainda não anunciaram a data de uma sexta marcha nacional.
  • Chile: O debate do Congresso sobre o orçamento de 2027, incluindo eventuais mudanças nos gastos com educação; a Constituição exige que os parlamentares concluam a votação em até 60 dias após a apresentação, em 30 de setembro.
  • Ambos: Se as federações estudantis vão intensificar a mobilização com greves ou ocupações, como já fizeram no passado, e se os governos vão oferecer concessões.

Perguntas frequentes

Por que os estudantes estão protestando na Argentina?

Eles querem que o governo do presidente Javier Milei cumpra uma lei de financiamento universitário que o Congresso aprovou em 2025 e depois manteve, derrubando o veto presidencial. As universidades dizem que os repasses orçamentários caíram muito em termos reais desde 2023. O governo afirma que precisa manter os gastos sob controle.

O que aconteceu na marcha de 15 de outubro em Buenos Aires?

Milhares de pessoas se reuniram em frente ao Congresso na quinta Marcha Federal Universitária. O protesto foi em grande parte pacífico até que grupos de encapuzados atiraram pedras na polícia, que usou gás lacrimogêneo e canhões de água. A ministra da Segurança disse que cerca de 12.000 pessoas compareceram, 31 foram detidas e oito agentes ficaram feridos.

Por que os estudantes estão protestando no Chile?

Os estudantes temem cortes na educação pública no primeiro orçamento do presidente José Antonio Kast, para 2027. Kast disse que o ensino superior gratuito continuará para mais de 600.000 estudantes, mas não informou se os orçamentos das universidades serão cortados.

Quantas pessoas foram detidas no Chile?

O Ministério do Interior do Chile informou 17 detenções na marcha estudantil de 1º de outubro, e as autoridades relataram pelo menos 29 detenções e seis agentes feridos na marcha de 18 de outubro, que marcou sete anos dos protestos de 2019.

O que acontece agora?

Na Argentina, a Justiça analisa a disputa sobre a lei de financiamento e o Ministério Público avalia uma denúncia do governo contra manifestantes. No Chile, o Congresso debate o orçamento de 2027. Grupos estudantis dos dois países sinalizaram novas mobilizações.

Fontes

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