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Ataque de drone em Abyei: o que se sabe sobre os 153 mortos

Autoridades locais afirmam que ao menos 153 pessoas morreram quando drones atingiram o mercado de Amiet, na disputada região de Abyei, em 19 de outubro. Veja o que está confirmado, quem acusa quem e por que a missão da ONU na área está sob pressão.

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Vista aérea da cidade de Abyei e das terras ao redor, a partir de um helicóptero da ONU
Sudan Envoy / Wikimedia Commons / CC BY 2.0 · Source

Principais pontos

  • Um ataque de drone na segunda-feira, 19 de outubro de 2026, atingiu o mercado de Amiet, um centro comercial ao norte da cidade de Abyei, no território reivindicado tanto pelo Sudão quanto pelo Sudão do Sul.
  • O ministro interino da Informação de Abyei afirmou que ao menos 153 pessoas morreram, acima do número anterior de 73. O total não foi verificado de forma independente, e as autoridades e a ONU esperam que ele aumente.
  • O Sudão do Sul culpou o Exército do Sudão e convocou o embaixador sudanês em Juba. As Forças Armadas do Sudão não comentaram oficialmente de imediato, mas um oficial sudanês de alta patente disse à Associated Press que o Exército atingiu caminhões-tanque de combustível a caminho das Forças de Apoio Rápido (RSF).
  • O secretário-geral da ONU, António Guterres, condenou os ataques perto do mercado de Amiet e de Todach sem apontar um autor e afirmou que "será preciso haver responsabilização".
  • O ataque ocorreu semanas antes do vencimento, em 15 de novembro de 2026, do mandato da força de paz da ONU para Abyei (UNISFA).

O que aconteceu

Drones atingiram o mercado de Amiet na manhã da segunda-feira, 19 de outubro. Amiet é o principal centro comercial da região de Abyei e fica ao norte da cidade de Abyei. Abyei é uma faixa de terra produtora de petróleo na fronteira entre o Sudão e o Sudão do Sul, e os dois países a reivindicam. A área faz divisa com a região sudanesa do Cordofão, que se tornou um dos principais campos de batalha da guerra entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e as paramilitares RSF.

Yohana Akol Ngor, ministro interino da Informação da administração de Abyei, disse que o ataque ocorreu por volta das 11h, horário local, segundo reportagem da Reuters. Ele afirmou que ainda havia incêndios no local um dia depois e que alguns corpos tinham sido reduzidos a cinzas, o que dificultava a recuperação e a contagem. Ele descreveu a situação como "terrível", segundo reportagens publicadas pela Al Jazeera e pelo The National.

A declaração do secretário-geral da ONU, publicada no site da UNISFA, menciona ataques de drone "perto do mercado de Amiet e de Todach". O texto diz que dezenas de civis, incluindo mulheres e crianças, morreram e muitos outros ficaram feridos, e que muitas pessoas continuam desaparecidas.

O número de mortos e quem o informa

Os números de vítimas mudaram rapidamente e vêm de fontes diferentes. Nenhum foi confirmado de forma independente. A tabela abaixo mostra o que cada fonte disse e quando.

FonteNúmeroDetalheDivulgado por
Primeiros relatos (19 de outubro)73 mortosTotal relatado sem confirmação oficial na épocaSudan Tribune; The National (Reuters)
Ministro interino da Informação de Abyei (20 de outubro)Ao menos 153 mortosDeve aumentar; alguns corpos queimados a ponto de não serem reconhecíveisReuters via Al Jazeera, The National, ABC News
Ministro interino da Informação de AbyeiCerca de 8.000 deslocadosOs incêndios dificultaram a recuperação dos corposReuters via ABC News
Médicos Sem Fronteiras (MSF)Mais de 20 feridos em tratamentoAlguns com queimaduras graves, no hospital de Ameth Bek, nas proximidadesAl Jazeera; ABC News
Secretário-geral da ONU"Dezenas" de civis mortosInclui mulheres e crianças; a UNISFA ainda está verificando; muitos desaparecidosSite da UNISFA, 21 de outubro
ONU / The NationalMais de 250 mortosTotal combinado de uma série de ataques de drone nos últimos dias, em Abyei e em outros lugaresThe National; ABC News

A diferença entre as "dezenas" da ONU e os 153 da administração local não é necessariamente uma contradição. A UNISFA ainda está verificando as vítimas, e a declaração da ONU diz que o número deve aumentar. Até que haja uma contagem verificada, o número de 153 deve ser entendido como uma estimativa da administração de Abyei.

Versões conflitantes sobre a autoria

Nenhuma parte assumiu publicamente o ataque, e os relatos sobre quem o realizou, e qual era o alvo, divergem bastante.

O Sudão do Sul e a administração de Abyei

O ministro interino da Informação de Abyei culpou o Exército sudanês. A Reuters observou que ele não apresentou provas da acusação. O Ministério das Relações Exteriores do Sudão do Sul também culpou o Sudão e disse que drones atingiram vários pontos dentro do mercado. O ministério pediu ao Sudão que se abstenha de ações que coloquem civis em perigo.

O Exército do Sudão

As Forças Armadas do Sudão não comentaram oficialmente de imediato, segundo a Al Jazeera. No entanto, um oficial militar sudanês de alta patente, falando sob anonimato à Associated Press, disse que o Exército atingiu caminhões-tanque de combustível vindos do Sudão do Sul e destinados às RSF. Ele afirmou que os mortos eram membros das RSF e contrabandistas de combustível e que os militares não têm civis como alvo. Integrantes do governo do Sudão, liderado por militares, também afirmaram que as RSF atuam em partes de Abyei, alegação negada pelo ministro de Abyei, segundo o The National.

Diplomatas, um trabalhador humanitário e um analista

Três fontes diplomáticas, um trabalhador humanitário e um especialista em conflitos disseram à Reuters que o ataque atingiu um depósito de combustível no mercado. Os diplomatas afirmaram que as RSF já tinham usado o depósito para abastecer suas forças. O ministro de Abyei disse que o depósito atendia comerciantes locais. Uma testemunha ouvida pela Reuters disse não ter visto combatentes das RSF nem outras pessoas fardadas no mercado.

As RSF

As RSF não responderam de imediato aos pedidos de comentário, segundo a Reuters.

Pelo direito internacional humanitário, mesmo um alvo de uso militar deve ser ponderado em relação ao dano esperado aos civis. A declaração da ONU não aponta um autor, mas ressalta que ataques contra civis e infraestrutura civil são proibidos e que todas as partes devem proteger os civis.

A resposta diplomática do Sudão do Sul

O Ministério das Relações Exteriores do Sudão do Sul convocou o embaixador do Sudão em Juba por causa do ataque, segundo o Sudan Tribune e a Al Jazeera. Juba afirma que não tomou partido na guerra do Sudão. Ainda assim, diplomatas e analistas citados pela Reuters e pela Al Jazeera dizem que Abyei se tornou uma rota de trânsito importante para o combustível e a logística das RSF. Essa alegação coloca Juba em uma posição difícil: qualquer percepção de que a área compartilhada de Abyei abastece um dos lados da guerra aumenta o risco de novos ataques perto da fronteira, enquanto a convocação do embaixador sudanês sinaliza que o Sudão do Sul vê o ataque como uma violação que atinge sua própria população.

A resposta da ONU e o mandato da UNISFA

Em sua declaração, o secretário-geral disse que a UNISFA mobilizou equipes médicas, recursos de combate a incêndio e forças de reação rápida para atender os feridos, apoiar evacuações e impedir que o fogo se espalhasse. Ele pediu aos governos do Sudão do Sul e do Sudão que tomem todas as medidas possíveis para evitar novos ataques e respeitem o status desmilitarizado de Abyei. O porta-voz da ONU, Stéphane Dujarric, disse separadamente: "Continuamos alarmados com os incessantes ataques de drone em todo o Sudão".

A Força Interina de Segurança das Nações Unidas para Abyei (UNISFA) foi criada pela resolução 1990 do Conselho de Segurança em junho de 2011, pouco antes da independência do Sudão do Sul. Segundo a missão, suas tarefas incluem proteger civis, manter Abyei como zona desmilitarizada, apoiar o diálogo sobre o status final da área, incentivar a reconciliação entre comunidades e facilitar a ajuda humanitária. A resolução 2802, aprovada em 14 de novembro de 2025 por 12 votos a favor, nenhum contra e três abstenções, prorrogou o mandato até 15 de novembro de 2026. Ela também estabeleceu metas que exigem que os dois países retirem forças armadas não autorizadas e desmilitarizem totalmente a área.

A missão já havia alertado para o aumento da insegurança. Em maio, segundo o The National, a UNISFA afirmou que a presença das RSF havia aumentado a insegurança e que os atrasos na definição do status final de Abyei colocavam em risco civis e funcionários da ONU. Em 17 de setembro, a UNISFA condenou a violência entre comunidades no mercado comum de Amiet que, pela sua contagem, havia deixado 26 mortos e 82 feridos até 16 de setembro. Em dezembro de 2025, um ataque de drone contra uma base logística da UNISFA em Kadugli, no Cordofão do Sul, matou seis capacetes-azuis de Bangladesh; o Exército do Sudão atribuiu o ataque às RSF, que negaram.

O que ainda não se sabe

  • Um número de mortos verificado. A UNISFA ainda está verificando as vítimas, e muitas pessoas são dadas como desaparecidas.
  • Quem realizou o ataque. O Sudão do Sul culpa o Exército do Sudão; um oficial sudanês anônimo descreveu um ataque do Exército contra combustível destinado às RSF; nenhuma investigação independente publicou conclusões.
  • O que foi atingido. Os relatos divergem sobre se o alvo principal foi um depósito de combustível, caminhões-tanque ou o próprio mercado, e sobre se o depósito atendia as RSF ou comerciantes locais.
  • A ligação com Todach. A declaração da ONU menciona ataques perto de Todach, além de Amiet; os detalhes das vítimas em cada local não foram divulgados separadamente.

O que significa

Se o número da administração de Abyei for confirmado, o ataque estará entre os ataques isolados mais letais ligados à guerra do Sudão desde o seu início, em abril de 2023, e entre os mais graves a atingir um território que deveria estar desmilitarizado e protegido por forças de paz da ONU. Ele também acentua três pressões ao mesmo tempo. Para o Sudão e o Sudão do Sul, acrescenta uma disputa diplomática a uma relação de fronteira já tensa. Para a ONU, ocorre semanas antes de o Conselho de Segurança decidir se, e como, renovará o mandato da UNISFA, e testa a capacidade da missão de proteger civis em uma zona onde drones podem atacar sem aviso. Para a população de Abyei, a perda do principal mercado da região afeta o abastecimento de alimentos, o comércio e o sustento, enquanto cerca de 8.000 pessoas foram deslocadas, segundo relatos. As perguntas-chave dos próximos dias são se surgirá um número verificado de mortos, se alguma investigação independente será aberta e como o Conselho de Segurança tratará de Abyei ao examinar o mandato em novembro.

Perguntas frequentes

Onde fica o mercado de Amiet?

O mercado de Amiet é o principal centro comercial da região de Abyei, ao norte da cidade de Abyei. Abyei é um território na fronteira entre o Sudão e o Sudão do Sul reivindicado pelos dois países.

Quantas pessoas morreram no ataque de drone em Abyei?

O ministro interino da Informação de Abyei afirmou que ao menos 153 pessoas morreram, acima do número de 73 relatado anteriormente. A ONU disse que dezenas de civis morreram e que a UNISFA ainda está verificando as vítimas. Nenhum número foi confirmado de forma independente.

Quem realizou o ataque?

Nenhuma parte assumiu a autoria. O Sudão do Sul e a administração de Abyei culpam o Exército do Sudão. Um oficial sudanês de alta patente disse à AP que o Exército atingiu caminhões-tanque de combustível destinados às RSF, enquanto diplomatas disseram à Reuters que um depósito de combustível usado pelas RSF foi atingido. As RSF não comentaram.

O que é a UNISFA?

A UNISFA é a Força Interina de Segurança das Nações Unidas para Abyei, criada em 2011. Ela protege civis e mantém Abyei desmilitarizada. Seu mandato atual, nos termos da resolução 2802 (2025), vai até 15 de novembro de 2026.

Fontes

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