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Protestos na Albânia: por que os estudantes enfrentam Rama

Desde 13 de outubro, protestos estudantis contra os custos da educação e a corrupção transformaram Tirana em um campo de batalha. Veja o que aconteceu dia a dia, o que diz cada lado e o que isso significa para as ambições europeias da Albânia.

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Albanian Prime Minister Edi Rama at a press conference in Berlin in March 2025
Matti Blume / Wikimedia Commons / CC BY-SA 4.0 · Source

Principais pontos

  • A capital da Albânia, Tirana, vive mais de uma semana de protestos antigoverno liderados por estudantes desde a terça-feira, 13 de outubro de 2026, muitos dos quais terminaram em confrontos com a polícia.
  • Os manifestantes exigem ensino universitário melhor e mais barato, mais empregos, medidas contra a suposta corrupção e a renúncia do primeiro-ministro Edi Rama, que cumpre seu quarto mandato.
  • Os números oficiais mostram a dimensão da violência: o Ministério da Saúde da Albânia registrou 272 feridos entre 13 e 18 de outubro, incluindo 169 policiais, e o chefe da polícia nacional afirmou que 167 pessoas foram presas nos primeiros cinco dias.
  • Rama se recusa a renunciar. Ele ofereceu diálogo "a qualquer hora, em qualquer lugar, sem condições", mas alertou para punições, incluindo a perda de bolsas de estudo, para os envolvidos em violência, e atribuiu os protestos a uma interferência estrangeira sem apresentar provas.
  • A União Europeia pediu uma resposta policial proporcional. A crise é um teste para um país que espera aderir à UE até 2030.

A Albânia raramente ganha manchetes internacionais por protestos de rua. Isso mudou em meados de outubro, quando as manifestações estudantis em Tirana se transformaram nos distúrbios mais prolongados que o país viu em anos. Prédios do governo, bancos e um tribunal foram danificados, a polícia disparou balas de borracha pela primeira vez nesta onda de protestos e o primeiro-ministro fez uma transmissão ao vivo em vídeo para acusar uma "mão estrangeira" de incitar as multidões. Os estudantes e seus apoiadores dizem que a revolta é genuinamente nacional e vem se acumulando há meses.

Este texto explicativo mostra como os protestos começaram, o que aconteceu dia a dia, o que diz cada lado e o que pode vir a seguir.

Contexto: de um projeto de resort às universidades

A onda atual tem duas raízes. A primeira é o chamado movimento Flamingo, cujo nome vem das aves cor-de-rosa nos cartazes dos manifestantes. Segundo a Al Jazeera e a Associated Press, ele surgiu na primavera (do hemisfério norte) de 2026 contra um projeto de turismo de luxo planejado para o litoral sul da Albânia, em grande parte ainda não urbanizado, ligado a uma empresa de investimentos fundada por Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Os críticos se opõem a construções em grande escala em um dos últimos trechos de litoral do país ainda praticamente intocados, enquanto os defensores desse tipo de projeto argumentam que ele traz investimentos e empregos.

A segunda raiz é a educação. Os estudantes reclamam há meses de mensalidades altas, instalações universitárias precárias e poucas perspectivas de emprego após a formatura, informou a Al Jazeera. Analistas ouvidos pela emissora disseram que os estudantes protestaram pacificamente por quase três meses antes da escalada de outubro e sentiam que suas reivindicações estavam sendo ignoradas. Há um precedente: em dezembro de 2018, protestos estudantis contra o aumento dos custos da educação levaram Rama a demitir oito ministros e anunciar um "Pacto pela Universidade".

Rama, do Partido Socialista, é primeiro-ministro desde 2013 e conquistou um quarto mandato nas eleições parlamentares de maio de 2025. A oposição contestou a votação, e denúncias de corrupção envolvendo altos funcionários alimentaram a revolta da população, segundo a Al Jazeera. O governo rejeita as acusações de corrupção sistêmica.

O que aconteceu: cronologia dia a dia

  • Terça-feira, 13 de outubro: Começam em Tirana os protestos liderados por estudantes, com milhares de pessoas pedindo a saída de Rama por causa das condições das universidades, das mensalidades e da corrupção, informou a AFP.
  • Quarta-feira, 14 de outubro: Os distúrbios duram mais de oito horas. A AP relatou que grupos de jovens quebraram vitrines, atearam fogo e danificaram pelo menos quatro prédios de ministérios. As autoridades disseram que 23 policiais e outras seis pessoas receberam atendimento por ferimentos e que 35 pessoas foram detidas. A imprensa local relatou que os protestos se espalharam para universidades de Elbasan e Shkoder.
  • Quinta-feira, 15 de outubro: Terceiro dia de confrontos. A Al Jazeera relatou incêndios em vários prédios, entre eles o gabinete do primeiro-ministro, sedes de ministérios e agências bancárias.
  • Sábado, 17 de outubro: O dia mais violento até agora, segundo a AFP. Os manifestantes lançaram pedras, coquetéis molotov e fogos de artifício contra a polícia; os agentes usaram gás lacrimogêneo, canhões de água e, pela primeira vez, balas de borracha. Um tribunal, bancos e uma agência dos correios foram incendiados ou gravemente danificados. O chefe da polícia nacional, Skender Hita, disse que as balas de borracha foram usadas "de forma limitada". Sete policiais foram afastados enquanto se investiga se excederam sua autoridade, informou a Al Jazeera.
  • Domingo, 18 de outubro: Centenas de pessoas se reuniram em frente ao Ministério da Educação pedindo a renúncia de Rama antes de a polícia voltar a usar canhões de água e gás lacrimogêneo. Lojas no centro de Tirana baixaram as portas de aço, e funcionários da prefeitura retiraram pedras do calçamento que poderiam ser usadas como projéteis, informou a AFP.
  • Segunda-feira, 19 de outubro: Sétimo dia consecutivo. A Agência Anadolu, citando a imprensa local, relatou confrontos perto do Ministério do Interior e do Tribunal de Apelação, além de protestos estudantis ou boicotes às aulas em Lezhe, Vlore, Elbasan e Shkoder. As autoridades disseram que cinco pessoas tinham sido presas e outras 15 estavam sendo procuradas.
  • Terça-feira, 20 de outubro: Rama endureceu o discurso em uma reunião com diretores de escolas (veja abaixo). Polícia e manifestantes voltaram a se enfrentar, informou o Washington Post, que descreveu o dia como o oitavo seguido de distúrbios.

Feridos e presos: o que dizem os números oficiais

PeríodoNúmeroFonte
14 de outubro23 policiais e 6 outras pessoas atendidas por ferimentos; 35 detidosAutoridades albanesas, via AP
13 a 17 de outubro (cinco dias)167 presos; 132 policiais feridosChefe da polícia nacional, Skender Hita, via Al Jazeera/AFP
17 de outubro9 manifestantes e 4 policiais atendidosMinistério da Saúde e Bem-Estar Social
13 a 18 de outubro272 feridos, incluindo 169 policiaisMinistério da Saúde, via AFP e Al Jazeera
19 de outubro5 presos, 15 procuradosAutoridades, via Agência Anadolu

Os números vêm de órgãos e períodos diferentes e não devem ser somados. Os organizadores dos protestos acusam a polícia de uso excessivo da força; essas acusações não foram verificadas de forma independente.

O que os manifestantes querem

As principais reivindicações, segundo a Al Jazeera e a AFP, são educação melhor e mais acessível, mais empregos para recém-formados, o fim da suposta corrupção e a renúncia de Rama. Um estudante de jornalismo disse à AFP: "Estamos exigindo nossos direitos, nosso futuro e um país melhor." Os organizadores também acusaram a polícia de violência excessiva contra manifestantes e jornalistas, preocupação mencionada pela delegação da UE em Tirana em seu comunicado.

O movimento é liderado por estudantes, mas tem apoio mais amplo. A Al Jazeera informou que grupos de oposição apoiam os manifestantes, enquanto analistas avaliam que uma mudança duradoura exigiria uma coalizão mais ampla do que apenas estudantes universitários e do ensino médio.

Como o governo responde

Rama traçou uma linha entre o protesto pacífico e a violência. Ele disse estar disposto a ouvir as reivindicações "justificadas" dos estudantes e a discutir o custo da educação, mas afirmou que quem destrói patrimônio deve ser responsabilizado. Questionado sobre os pedidos de renúncia, disse à Reuters que governos mudam por meio de eleições, não de revoluções. Em 19 de outubro, renovou a oferta de diálogo "a qualquer hora, em qualquer lugar, sem condições", informou a Anadolu, ao mesmo tempo em que disse que não negociaria com pessoas envolvidas em violência e pediu aos organizadores que mantivessem menores de idade afastados.

Seu tom também endureceu. Em um longo vídeo em 18 de outubro, ele classificou os protestos como obra de uma "mão estrangeira", informou a AFP, e perguntou se os albaneses queriam desordem ou a adesão à UE. Em uma reunião com diretores de escolas de Tirana em 20 de outubro, segundo o Balkan Insight (BIRN), ele disse que alguns estudantes estavam "ligados a ideologias politicamente extremistas", afirmou que serviços de inteligência estrangeiros, incluindo os da Rússia e do Irã, haviam incitado os distúrbios e acusou a oposição interna de envolvimento. O BIRN observou que ele não apresentou provas. Rama advertiu que as famílias de menores poderiam ser responsabilizadas pelos danos e que estudantes envolvidos em violência poderiam perder bolsas, auxílio financeiro e o ensino gratuito. Em outra reunião, com chefes de polícia, prometeu um bônus de 2.500 euros aos policiais.

O gabinete do primeiro-ministro afirmou depois que as declarações se referiam a atos de violência, e não ao direito de protestar, e que os alertas aos pais se baseavam no Código Civil e não significavam punição coletiva. Críticos, entre eles o escritor Fatos Lubonja, disseram ao BIRN que o discurso equivalia a ameaças contra qualquer pessoa que proteste, mesmo de forma pacífica.

Outras autoridades condenaram a violência. O presidente Bajram Begaj declarou: "A Constituição e a lei devem continuar sendo os limites para todos, sem exceção." A embaixada dos Estados Unidos em Tirana pediu contenção e calma a todos os lados. A delegação da UE pediu uma resposta proporcional e afirmou que "a liberdade de reunião e de expressão são direitos fundamentais e valores europeus essenciais". A sociedade civil e organizações de imprensa albanesas também pediram o fim da violência e uma atuação policial legal e proporcional.

O que significa

  • Para Rama: Ele mantém a maioria no parlamento e não há eleição prevista, então os protestos não ameaçam diretamente sua permanência no poder. Mas uma semana de confrontos transmitidos pela TV abala a imagem que ele cultivou de modernizador que conduz a Albânia rumo à UE. Um analista disse à Al Jazeera que sua legitimidade "derreteu"; seus apoiadores contestam essa avaliação.
  • Para a candidatura à UE: A Albânia está entre os candidatos dos Bálcãs Ocidentais que mais avançaram rumo à adesão. Bruxelas acompanha de perto a atuação policial, a liberdade de imprensa e o Estado de direito, por isso a forma como o governo lida com os protestos importa tanto quanto os próprios protestos.
  • Para a economia: Comerciantes do centro de Tirana fecharam suas vitrines, e o turismo, uma fonte importante de receita, depende da imagem da Albânia como destino seguro. Nenhuma estimativa oficial do custo econômico foi publicada.
  • Para a região: A crise na Albânia ecoa um padrão mais amplo de protestos liderados por jovens contra problemas na educação, o custo de vida e a corrupção, do movimento estudantil da Sérvia, que já dura dois anos, aos protestos escolares na França.

O que vem a seguir

  • Diálogo ou escalada: A questão central é se os grupos estudantis vão aceitar a oferta de diálogo de Rama e em que termos. Por enquanto, a principal reivindicação continua sendo a renúncia dele.
  • Processos judiciais: Os processos contra os presos e as investigações sobre os policiais afastados vão influenciar a forma como os dois lados enxergam a resposta do Estado.
  • Punições a estudantes: Vale observar se o governo vai de fato retirar bolsas ou responsabilizar os pais, medidas que, segundo críticos, podem acirrar as tensões.
  • Reação da UE: Novas declarações da delegação da UE ou da Comissão Europeia indicariam como Bruxelas avalia a crise.

A situação evolui rapidamente, e os números podem ser revisados à medida que as autoridades divulgarem atualizações.

Perguntas frequentes

Por que há protestos na Albânia?

Os protestos liderados por estudantes, iniciados em 13 de outubro de 2026, giram em torno de mensalidades altas, más condições nas universidades, falta de empregos e suposta corrupção no governo. Os manifestantes exigem a renúncia do primeiro-ministro Edi Rama. A onda nasceu de protestos anteriores do movimento Flamingo contra um projeto de resort no litoral ligado à empresa de investimentos de Jared Kushner.

Quantas pessoas ficaram feridas ou foram presas?

O Ministério da Saúde da Albânia registrou 272 feridos entre 13 e 18 de outubro, incluindo 169 policiais. O chefe da polícia nacional, Skender Hita, disse que 167 pessoas foram presas nos primeiros cinco dias. Números de órgãos e datas diferentes não devem ser somados.

Edi Rama renunciou?

Não. Rama descartou a renúncia e afirma que governos mudam por meio de eleições. Ele ofereceu diálogo sem condições aos manifestantes, mas alertou para punições, como a perda de bolsas de estudo, aos envolvidos em violência.

O que a UE disse?

A delegação da UE na Albânia manifestou preocupação com a escalada da violência, pediu uma resposta proporcional das autoridades e ressaltou que a liberdade de reunião e de expressão são direitos fundamentais.

É seguro viajar para Tirana?

Os confrontos se concentraram no centro de Tirana, sobretudo perto de prédios do governo, e houve protestos em outras cidades. Os viajantes devem seguir as orientações de viagem de seu governo e o noticiário local, além de evitar manifestações.

Fontes

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